As mulheres girafas de Mianmar e da Tailândia

Há já algum tempo, que as mulheres girafa de Myanmar (antiga Birmânia) e da Tailândia têm sido uma fonte de fascínio e controvérsia. Estas mulheres usam vários anéis dourados em torno dos seus pescoços (e de outras partes dos seus corpos), alongando-os para um tamanho e forma anormais.

Com o crescimento do turismo em ambos os países, elas tornaram-se numa atração turística e o destaque para muitos fotógrafos de viagens. Mas vários mitos existem acerca do bem-estar e simples existência destas pessoas. E o turismo pode muito bem ser ao mesmo tempo a sua perdição e salvação.

Neste momento é possível que te estejas a perguntar:

Por que razão as mulheres Kayan usam aqueles grandes anéis no pescoço?

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As mulheres na Birmânia têm usado os “anéis” há gerações, e desde então muitos mitos se desenvolveram (Créditos: domínio público (https://pxhere.com/fr/photo/1093128))

Esta tem sido uma antiga tradição entre as mulheres da comunidade Kayan Lahwi (também chamada Padaung), uma sub-tribo da etnia Karen (ou Karenni), um grupo nativo do Estado Kayah em Myanmar. Muitos mitos e lendas envolvem esta antiga tradição:

  • os anéis são usados ​​como auto-protecção contra ataques de tigre, geralmente direccionados ao pescoço;
  • são usados ​​para aprisionar as mulheres ou impedir que tribos rivais as sequestrem, diminuindo sua beleza;
  • se as mulheres-girafa removerem os anéis, morrem.

Mas embora algumas dessas lendas sejam centenárias, as teorias mais comuns apontam para os anéis como um símbolo de estatuto, beleza e riqueza. Os anéis eram itens de moda caros e normalmente reservados para as filhas prediletas de cada casa. No entanto, a prática está a tornar-se uma raridade e encontra-se face a um futuro incerto.

Hoje muitas mulheres decidiram abandoná-la, escolhendo um estilo mais moderno. As que continuam a usar os anéis fazem-no não apenas por uma qualquer dedicação à tradição, mas por razões pragmáticas e comerciais: os turistas endinheirados vêm à região para tirar fotos das mulheres-girafa.

O que são exactamente esses anéis?

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Os “anéis” são um símbolo de status, beleza e riqueza (Créditos: domínio público (https://pxhere.com/fr/photo/1329746))

As mulheres Kayan usam espirais – não anéis, embora assim sejam conhecidos – feitas de latão e liga de ouro, não apenas em torno do pescoço, mas também nas extremidades dos seus membros. Um conjunto completo compreende três espirais de latão – uma na clavícula, outra no pescoço e a última envolvendo a parte inferior. Juntas, pesam cerca de 10 quilos. De acordo com o livro Guinness dos recordes, o registro de pescoço mais longo do mundo pertencia a uma mulher Padaung, com 40 cm.

As meninas começam a usar os anéis quando têm cerca de 5 anos de idade. Ao longo dos anos, a espiral é substituída por uma mais longa e mais voltas são adicionadas, até cerca de uma dúzia. O peso do latão empurra a clavícula para baixo e comprime a caixa torácica. O pescoço em si não é alongado; a aparência de um pescoço esticado é criada pela deformação da clavícula.

A espiral, uma vez colocada, raramente é removida, pois o enrolamento e desenrolamento é um procedimento demorado. Geralmente só é removida para ser substituída por uma espiral nova ou mais longa. Os músculos cobertos pela espiral ficam enfraquecidos. Muitas mulheres retiram os anéis para poder efetuar exames médicos. A maioria das mulheres prefere usar os anéis quando a clavícula já está deformada, pois a área do pescoço e da clavícula geralmente fica marcada e descolorada. Além disso, sentem já os anéis como parte integrante do seu corpo após dez ou mais anos de uso contínuo.

E não, se retirarem os anéis, as mulheres Kayan não morrem.

Como as mulheres Kayan entraram na Tailândia e qual é o problema?

Mulher Kayan Tailândia

Mulher Kayan tecendo perto de Chiang Mai, no norte da Tailândia (Créditos: domínio público (https://pxhere.com/fr/photo/1402994))

No final dos anos 80, o intensificar da guerra civil entre Karenni e o governo birmanês fez com que o povo Kayan fugisse de Myanmar para as colinas do norte da Tailândia. O governo tailandês concedeu-lhes acesso como migrantes econômicos, e não como refugiados.

Assim foram colocados em aldeias protegidas em torno de Chiang Mai e Pattaya (que são basicamente campos de refugiados), onde têm estado em exibição para os turistas – vendendo souvenirs e posando para os turistas tirarem fotos (essencialmente trabalhando como se vivessem numa loja de presentes) e para os governos locais ganharem dinheiro desde então, como se fossem animais de zoológico.

Infelizmente, a taxa de entrada nas aldeias raramente é investida nos habitantes diretamente. Os moradores recebem uma pensão de alimentos, produtos de higiene pessoal e lucram com as vendas de artesanato; as mulheres que usam os anéis ganham um salário extra. No entanto, os responsáveis das aldeias diminuem os salários se as mulheres falarem das suas dificuldades com os visitantes ou usarem qualquer coisa moderna, como tele móveis ou computadores.

Muitos dos homens e mulheres Kayan não foram autorizados a deixar estas aldeias artificiais ou a área sem um cartão de identificação tailandês e como eles são refugiados birmaneses, não podem solicitar um para construir um futuro noutro lugar. Sem cidadania legal, eles têm ainda acesso limitado a água, eletricidade, infraestrutura, saúde e educação. As escolas locais não oferecem educação acima do sexto ano e sem documento de identificação, o povo Kayan não tem direito ao seguro de saúde, o que significa que uma visita ao hospital não é acessível para os pequenos salários que ganham vendendo artesanato aos turistas.

Mais recentemente, graças ao cessar-fogo em Myanmar, alguns deles conseguiram voltar às suas origens e às suas famílias em Loikaw, no estado de Kayah. Loikaw é a sua verdadeira casa e ali andam livremente sendo apenas mais um cidadão.

Visitar as Kayan: é ético?

Mulheres Padaung Birmânia

Duas mulheres padaung numa loja de uma das comunidades do Lago Inle, na Birmânia (Créditos: Cau Costa)

Hoje não é segredo que as Kayan foram exploradas em nome do turismo, e não é por acaso que algumas aldeias Kayan na Tailândia têm sido chamadas de “zoos humanos”. Até agora, esse fenômeno ainda não se verificou na Birmânia, mas é preciso ter cuidado para garantir que o turismo não coloca em risco a cultura e dignidade do povo Kayan. Até há pouco tempo o estado de Kayah encontrava-se vedado ao turismo, mas esta situação mudou em 2014, sendo agora possível visitá-lo.

Se estiveres a pensar visitar uma região da Birmânia onde possas encontrar populações Kayan (ou de quaisquer outras minorias étnicas), certifica-te de que o fazes através de um operador turístico responsável e viaja apenas com um guia local credenciado. O teu guia garantirá não só que segues a etiqueta cultural do local, mas fará também a ponte com as pessoas que encontrarem, permitindo assim a oportunidade de ter um contacto mais significativo com as comunidades.

De qualquer forma, simplesmente não apareças para tirar algumas fotos e sair logo de seguida. Deve-se sempre pedir permissão antes de tirar fotografias, ler sobre a cultura local e, se possível, passar algum tempo com as pessoas que vais encontrando. Não há nada de errado em interagir com pessoas de grupos étnicos minoritários na Birmânia; mas quando elas se tornam apenas em mais um item riscado na tua bucket list (lista de desejos), sabes que há algo que não estás a fazer bem.

Fonte: https://www.thewanderlust.pt

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