Gardiner o Pioneiro nas terras geladas da Patagônia – Argentina

ALLEN FRANCIS GARDINER – O PIONEIRO NA PATAGÔNIA

Na semana do Natal de 1831, o navio “Beagle” saía de Devonport, Inglaterra, com rumo ao extremo sul da América Meridional.

Allen Francis Gardiner – 1794 – 1851

A atenção de todos os passageiros estava concentrada sobre três índios da Terra do Fogo que estavam aos cuidados do capitão. Como explicar a presença desses foguinos num navio que saia da Inglaterra?

Em uma expedição anterior o capitão Fitzroy havia levado a bordo a quatro indígenas, dos quais um faleceu na Inglaterra. Sendo cristão, o homem interessado na obra missionária, tratou muito bem dos índios resolvendo levar alguns deles para a Inglaterra para educá-los e depois trazê-los de volta para a Terra do Fogo.

Também ia a bordo com eles um missionário chamado Matthews que pensava ficar com os três índios foguinos para evangelizar os demais. Deixaram em terra os três indígenas e ao missionário Matthews e voltou a cabo de dez dias, achando que os índios eram perigosos e punham em perigo a vida do missionário, que resultava impraticável a ideia que ele havia trazido.

Os índios o haviam despojado de tudo, e entre outras coisas haviam procurado “arrancar-lhe todos os pêlos que tinha no rosto”. Matthews desembarcou na Nova Zelândia.

Fracassada essa tentativa, aparece o heroico Allen Francis Gardiner. Desde sua infância havia mostrado grande inclinação à marinha.

Quando tinha apenas dez anos de idade, sua mãe o encontrou dormindo no chão. Ao perguntar-lhe por que se havia deitado no chão, Gardiner respondeu que “queria acostumar-se desde pequeno a uma vida dura para não sofrer tanto quando saísse a recorrer o mundo”.

Entrou na Armada e ascendeu até ser capitão, mas ao falecer sua esposa em 1834 não o viram mais em atividade. Conheceu o Senhor Jesus com a idade de vinte anos e resolveu consagrar-se a evangelização dos pagãos, o que não pode fazer senão aos quarenta anos de idade.

Viajou pela África, Nova Guiné e por outros territórios, mas seu alvo definitivo veio ser a América do Sul. Visitou a Cordilheira dos Andes e o Chile, mas seus projetos missionários eram recebidos mui friamente.

A oposição do clero lhe obrigou a pensar em alguma região onde não pudesse ser molestado e a parte mais meridional do continente lhe apareceu propicio para tal empreendimento missionário.

A viagem à Terra do Fogo  

Em 1842, desembarcou no Estreito de Magalhães, chegando a Terra do Fogo, e depois de buscar aos índios, estabeleceu relação com um chefe chamado Guisale quem prometeu proteger-lhe contra qualquer ataque.

Descoberta do Estreito de Magalhães

O principio apresentava boas perspectivas e resolveu retornar a Inglaterra para comunicar o resultado e solicitar a cooperação de alguma Sociedade Missionária.

Como não lograva ser ajudado, resolveu fundar uma sociedade com os elementos que lhe correspondiam e em 4 de julho de 1844, na cidade de Brighton nasceu a Sociedade Missionária Patagônica, sendo ele mesmo o primeiro secretário da Missão,  e pouco tempo depois estava de regresso no campo que havia escolhido, levando consigo provisões  para seis meses.

Ao chegar encontrou com que o chefe Guisale que havia mudado de parecer, o recebeu com muita frieza e indiferença. Todos os meios que empregou para reconquistar sua amizade fracassaram e o valente Gardiner teve que dar-se por vencido e voltou de novo a seu país, ainda que a idéia fosse de regressar.

A visão que persevera

Os amigos que lhe haviam ajudado começaram a desanimar dizendo que era inútil gastar dinheiro num novo projeto missionário para a Patagônia.  O Comitê propôs abandonar o projeto. “Qualquer que seja vossa determinação”, respondeu Gardiner com a firmeza de um herói, “tenho resolvido voltar ao Sul da América e dar volta a todas as pedras e provar todos os esforços para estabelecer uma missão entre os aborígenes”.

Ante esta firmeza, o Comitê resolveu continuar e Gardiner cruzou de novo o Atlântico acompanhado por um espanhol protestante chamado Federico González. Esta vez se introduziu no continente chegando até a Bolívia, onde um presidente liberal o recebeu amavelmente prometendo-lhe ajudá-lo. Mas novas dificuldades surgiram.

Explodiu uma revolução e teve que voltar a seu país em busca de ajuda, mas todos lhe davam as costas e estavam surdos, porque lhes parecia que todos esses fracassos demonstravam que seus projetos eram irrealizáveis.

Mas Gardiner era um daqueles que não se dão por vencidos e em 1848 reaparece na Terra do Fogo em companhia de alguns outros companheiros e se estabelece em Puerto Pabellón, onde levantaram suas tendas.

A oposição dos indígenas faz fracassar de novo esta tentativa e Gardiner se deu conta que o único meio de evangelizar essas ilhas era tendo “uma Missão Flutuante”, ou seja, um barco no qual viver e guardar as provisões, e onde somente baixariam para tratar com os indígenas.

Isto significava ter que voltar outra vez a Inglaterra e enfrentar o desalento que dominava seus amigos da missão. Como era o único caminho a tomar, Gardiner voltou, propondo de novo seu projeto.

Não é necessário falar da frieza e do desgosto com que foi recebido. Mas Gardiner tomava mais força e seguia golpeando as portas que pareciam fechadas, até que conseguiu fazer-se ouvir.

As pequenas embarcações

Em setembro de 1850, em companhia de sete; três marinheiros chamados Pearse, Badcock e Bryant e o médico Ricardo Williams, que deixou sua profissão para consagrar-se ao bem dos selvagens; Juan Maidment, um jovem de ardor apostólico; Jose Erwin, carpinteiro de barcos e Allen Gardiner desembarcaram levando com eles dois pequenos barcos de aproximadamente oito metros de largura com seus correspondentes botes salva vidas para desembarcar.

A falta de fundos suficientes lhes haviam obrigados a conformar-se com essas pequenas embarcações no lugar do navio que necessitavam. Um dos barcos recebeu o nome de “Pioneer” e o outro “Speedwel”.

Chegando à Terra do Fogo, desembarcaram em Puerto Pabellón, mas a oposição dos indígenas lhes obrigou a regressar aos barcos, perdendo muitas provisões. As constantes tempestades que castigavam essas desoladas regiões inutilizaram o “Pioneer” a tal ponto que tiveram que colocá-lo em terra e com umas lonas serviu de habitação.

Terra do Fogo – Ushuaia

A pesca na qual haviam confiado os missionários para terem alimentos não dava resultados e as armas que levavam para a caça não podiam ser utilizadas porque haviam esquecido a pólvora no navio que lhes haviam trazido.

As provisões começaram a escassear e o navio que esperavam nunca chegava. A hora se fazia cada vez mais critica. Todos os dias pareciam anos para os sete heróis que já pressentiam que o fim seria morrer de fome entre os gelos do Sul.

O “Speedwell” fez uma viagem inútil ao Puerto Pabellón em busca de algumas provisões que haviam escondido. O momento era solene e com dores começavam a dar conta do desenlace da missão.

Dentro de algumas garrafas puseram uma nota pedindo auxílio a quem as pudesse encontrá-las e as cobriram com pedras grandes sobre a qual escreveram estas palavras: “Escavem debaixo, sigam ao Porto Espanhol”. Março de 1851.

Allen Gardiner e Williams tinham o costume de escrever um diário com pormenores de suas vidas e isto possibilitou saber algo acerca de seus últimos dias como heróis pioneiros naquelas regiões.

Os últimos dias de um herói

No mês seguinte em abril, ainda restavam algumas provisões para dois meses apenas. A fé em Deus nunca fraquejou. No diário de Williams podiam-se ler estas palavras: “dormindo ou acordado, me sinto mais feliz do que se pode expressar a linguagem humana”.

Allen Gardiner no dia de seu aniversário, no mês de Junho escreveu: “Se desfaleço ou morro aqui, te rogo a ti oh! Senhor! Que levantes a outros e envie mais obreiros a esta seara”.

Badcock foi o primeiro que morreu pedindo a Williams que cantasse o hino que diz: “Levanta-te, alma minha”. Seis semanas depois morreu Erwin. Logo lhe seguiu Bryant. As mãos debilitadas de seus companheiros puderam, todavia cavar as sepulturas.

Os dias, 28 e 29 de agosto de 1851, todavia ficavam alguns com vida e Gardiner escrevia as seguintes palavras despedindo-se de sua filha:

“Ele me tem guardado em perfeita paz… confio que a pobre Fuegia não será abandonada. Se tenho um desejo que expressar para o bem de meus camaradas é que a missão da Terra do Fogo seja prosseguida com vigor”.

     Em outra parte de seu diário se leem estas palavras: “Ontem não comi nada. Bendito seja o meu Pai Celestial por suas bênçãos que tenho desfrutado: uma cama cômoda, nenhuma dor, nenhuma câimbra, ainda que impossibilitado de dar a volta sobre o meu leito”.

As últimas palavras de seu diário são estas: “Grande e maravilhoso é o amor de meu bom Pai, para comigo. Ele me há guardado até aqui sem alimento para o meu corpo, mas sem sentir nem fome e nem sede”.

No dia 6 de Setembro, Gardiner, todavia estava com vida, pois foi achada uma carta com esta data. Vinte dias depois o navio chamado “John Davison” conduzido pelo capitão Smyley, chegava ao Puerto Pavellón e guiado pelas mensagens das garrafas, dirigiu-se ao rio Cook e ali achou um cadáver dentro de um bote e outro na ribeira.

“A cena era horrível ao extremo.” escreveu o capitão. Os dois capitães que foram comigo choravam como crianças. Livros, medicinas, ferramentas, tudo em fim, se encontrava espalhado pela praia.

Assim terminaram seus dias esses incomparáveis heróis. Coração nobre, firme e magnânimo, este exemplo de amor e fé, cujo anelo foi servir ao Senhor no terreno mais difícil de cultivar.

O despertar de uma Missão

Quando as notícias chegaram à Inglaterra, a consternação se apoderou de todos os amigos da Missão. Se os cristãos fossem mais generosos e houvessem dado a Gardiner e a seus companheiros o navio que pediram, a história não contaria com esta página triste.

Mas os cadáveres estendidos sobre as rochas nevadas da Terra do Fogo falaram com mais eloquência que os lábios ardentes de Allen Gardiner. Assim resolveram cumprir o desejo do herói prosseguindo a Obra. Os donativos generosos começaram a chegar, e compraram um navio adequado que puseram o nome de “Allen Gardiner”.

Um novo grupo de missionários estava pronto para a missão. Foi então que o reverendo George Pakennhan Despard assume a direção da Sociedade Missionária Patagônica e organiza uma nova cruzada para a Terra do Fogo

O trágico domingo em Wulaia

No dia 4 de outubro de 1854 zarpam de Bristol com as ilhas Malvinas o veleiro “Allen Gardiner” o navio da missão; vai ao mando do capitão W. Parker Show, com sete tripulantes, catequistas, cirurgião, pedreiro e carpinteiro.

Ao fim de janeiro estão no porto Stanley e obtém do governo a concessão da ilha Keppel, onde instalam e iniciam a exploração da agropecuária para cobrir gastos e em outubro sai o navio e rendem homenagem aos mártires em Banner Cove e Puerto Español e seguem à ilha Navarino.

O plano consistia em realizar a conversão e assistência aos índios na temporada do verão e regressar às Malvinas com a dupla finalidade de melhorar a educação dos índios e estudar seu idioma durante o obrigado recesso.

Não bem avistam o navio, os índios de Wulaia, o rodeiam com suas canoas e sobem a bordo, querendo presentes que nunca haviam recebidos. Eram distribuídas balas e doces e os selvagens invadem a embarcação e custou muito para impedi-los que levassem tudo que encontravam à mão.

Diariamente os missionários desciam a terra para trabalhar nas construções e também trabalham na horta para despertar a atenção dos índios para a agricultura.

O primeiro Culto

No domingo, dia 6, descem do navio o capitão Garland Philips, e mais sete companheiros. Philips dá início ao ofício religioso; nas imediações havia uns trezentos índios “yaganes”.

O cozinheiro Alfred Cole, foi o único tripulante que ficara no interior do navio, contempla a cena da reunião religiosa, quando vê que vários índios se apoderam dos remos dos botes e o empurram para a água, como obedecendo a um sinal combinado.

Logo aplicam uma mortal machadada a um dos marinheiros e de imediato se entregam a um veloz ataque contra os missionários que correm desesperados em direção à praia; um a um vão ficando no trajeto e o último morre agarrado ao bote.

Os índios põem os olhos no navio para saqueá-lo e antes que o façam o cozinheiro Cole se esconde dentro do navio por muitos dias até que faminto sai do seu esconderijo e é capturado pelos índios yaganes, que não o matam e nem o maltratam, mas os despojam de suas roupas e depois de duas semanas o permitem regressar ao navio que haviam saqueado varias vezes.

Em 1851 chega o navio “Nancy” a Wulaia e recolhe o cozinheiro Cole e localizam os cadáveres de oito missionários assassinados pelos índios, no dia 6 de novembro.

Os selvagens guardavam um silencio absoluto e os demais não estavam hostis com a chegada do socorro. Inclusive os yaganes colaboram com a restauração do navio “Gardiner” e faziam tudo que lhes pediam, como se nada houvesse acontecido.

Depois partiram para as ilhas Malvinas e para a Inglaterra. O desafio continuava e outros missionários foram para a Terra do Fogo e tiveram o êxito que se podia esperar no meio de um povo selvagem que se extinguia.

O Atalaia de Deus

Entre os missionários que mais sobressaíram figura a pessoa de Tomás Bridges, mais conhecido como “o Atalaia de Deus”, permanecendo durante trinta anos naquelas regiões geladas e que segundo disse o escritor argentino Roberto J. Payró em “La Austrália Argentina”, “há feito um estudo profundo do idioma e costumes dos índios yaganes”, provavelmente, acrescenta: “a ele se devem muitos informes publicados logo por outras pessoas”.

A Sociedade Missionária Patagônica, não se limitou a Terra do Fogo, mas se há entendido a muitas partes do continente, ocupando-se com preferência pelos indígenas.

“Allen Francis Gardiner, no dia de seu aniversário no mês de Junho, rogou seu “presente” ao Senhor quando escrevia em seu diário: “Se desfaleço ou morro aqui, te rogo a ti oh! Senhor! Que levantes a outros e envie mais obreiros a esta seara”.

A oração final do pioneiro na Patagônia Allen Francis Gardiner iria encontrar guarida no Coração de Deus, e Deus responderia ao bradar em muitos corações que estavam dispostos a aceitarem o desafio de irem fazer Missões em uma das regiões mais hostis e terríveis da América do Sul, a Patagônia, no Sul da Argentina austral.

Depois de sua morte nas terras geladas da Patagônia, Deus enviou dezenas de missionários, respondendo à oração de Gardiner, “oh Senhor! Que levantes a outros e envie mais obreiros a esta seara”.

Em 1981, foi a nossa vez, pois Deus me chamou juntamente com minha família para desbravar a Patagônia, região que por causa dos ventos e do frio intenso, consome seus moradores. Ali permanecemos durante 5 anos. Agradeço a Deus pela oportunidade de ter contribuído em pregar o Evangelho em obediência à Grande Comissão do Senhor Jesus Cristo.

Pastor Antonio Romero Filho

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